No dia 27 de maio de 2026 participei da live Quem você lê para escrever? Valorizando a literatura produzida por mulheres. A atividade, que foi organizada pelos projetos Ação SOL, CINE História UESPI e Trilhas Literárias, contou também com a participação de Juliete Vasconcelos e Olívia Candeia. Durante a live, nós três compartilhamos nossas experiências como escritoras.
A íntegra do evento vocês podem assistir neste link, mas compartilho abaixo uma parte da minha fala na live. Boa leitura!
Nessa vida de leitora passei por várias fases: li os clássicos da literatura infantil graças as edições de 1,99 da Revista Hermes, li livros emprestados e assim cheguei a obras que marcaram minha adolescência como “A marca de uma lágrima” e “O mundo de Sofia” e também li muita literatura brasileira graças as bibliotecas das escolas onde estudei. Esse último fato é de certo modo um privilégio, pois se mesmo hoje as bibliotecas ainda não estão consolidadas nas escolas públicas, na década de 1990 menos ainda.
A escrita veio se fazer presente na minha vida de modo regular e sistematizado já depois de adulta, principalmente depois que ingressei na graduação. Eu escrevo principalmente no contexto acadêmico. Já organizei e publiquei capítulos nos livros Bibliotecas Universitárias: estudos e experiências (2022) e A Biblioteconomia sob olhar biográfico: abordagens sobre autores internacionais e nacionais (2023), por exemplo.
Já a literatura foi algo que eu tive que me convencer que também sabia fazer. E essa escrita literária aparece tanto no blog Estante de Bibliotecária, que mantenho a mais de 10 anos (talvez seja um dos últimos blogs da minha área) quanto no conto “Mãe de pet” publicado na antologia “Todas as formas que há de amar” (2020).
No caso do blog, penso que ele contribuiu muito para que eu pudesse exercitar organização da escrita, processo de pesquisa e referência pra produzir conteúdo em formato menos acadêmico e, principalmente, me deu a confiança de que meus textos despertavam sim o interesse do público.
Já a antologia surgiu a partir da minha participação numa oficina de escrita criativa. Na oficina eu aprendi a lapidar meus textos de outros formas, aprendi a revisar conjuntamente e pude ter pela primeira vez a experiência de lançar uma obra. No caso da Antologia houve ainda o desafio de construir uma obra em que todos os textos partiam do mesmo tema: o amor.
Ao longo dessas experiências de escrita o meu repertório foi se modificando, especialmente a partir do encontro com coletivos e trabalhos de outras mulheres, como o coletivo Leia Mulheres e o Clube de Leitura da ACI (Associação Cearense de Imprensa). Estar nos encontros e acompanhar as produções desses coletivos, sem sombra de dúvidas, me possibilita construir um olhar ao mesmo tempo mais crítico acerca da literatura que consumo e mais generoso e corajoso acerca daquilo que produzo.
Gosto de destacar as iniciativas literárias associadas e/ou produzidas por mulheres porque penso que na última década temos conseguido ser bastante inovadoras e corajosas na forma como fazemos e abordamos a literatura. Foi a partir da teimosia de mulheres que não desistiram de escrever e ser publicadas que temos obras como a de Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Jarid Arraes e tantas outras. É pela ousadia e organização de mulheres que temos editoras como a Bazar do Tempo que tem seu catálogo focado em livros escritos por mulheres.
Essas e outras influências se refletem também na bibliotecária que sou. Meu olhar hoje é muito melhor treinado para identificar lacunas de representação no desenvolvimento de coleções e buscar alternativas para corrigi-las, por exemplo.
Para fechar esse meu apanhado de memórias, eu vou me apropriar das palavras da Jurema Werneck ao se referir a escrivência de Conceição Evaristo como sendo aquela que reivindica o corpo presente e penso que isso se aplica a várias experiências literárias feitas por mulheres, pois nós escrevemos porque sabemos que o mundo que é dito, existe. E é através desse dizer que nos construímos e transformamos esse mundo.
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SANTOS, Izabel Lima dos. Ler para escrever. Ler e escrever para transformar. In: SANTOS, Izabel Lima dos. Estante de Bibliotecária. Fortaleza, 1 setembro 2026. Disponível em: https://estantedebibliotecaria.com/2026/09/01/ler-para-escrever-ler-e-escrever-para-transformar/. Acesso em: dia mês ano.