Origens conceituais do Serviço de Referência

Uma das mais antigas definições de Serviço de Referência (SR) é a da bibliotecária Alice Bertha Kroeger que definia o SR como sendo “parte administrativa da biblioteca, que dizia respeito à assistência aos leitores no uso das fontes da biblioteca” (KROEGER, 1908, p. IX, tradução minha). Um tanto reducionista, não acham?

Essa e outras definições do SR refletem o cenário que deu origem a esse tipo de atividade. Afinal, ela surgiu para ajudar as pessoas que iam até as bibliotecas na consulta do catálogo, pois esses instrumentos eram difíceis de manusear. Sobre a estrutura dos catálogos de biblioteca no período de transição do século XIX pro XX sabemos que eles se caracterizavam enquanto “[…] inventários de coleções (como livros de tombo), em geral organizados em códices, ou seja, na forma de livro (DOTTA ORTEGA, 2010, p. 4). Consultar esses livros de tombo era moroso e requeria certo grau de expertise técnica para garantir que nenhuma obra útil passasse desapercebida.

Descrição da imagem: Fotografia de asfalto em que aparecem desenhadas 3 setas brancas, cada uma apontando pra uma direção. Abaixo das setas está escrita, também na cor branca, a palavra Start. Créditos da imagem: Gerd Altmann

Em uma outra definição, o SR aparece sendo conceituado como um “auxílio pessoal, cheio de simpatia e bem informado na interpretação das coleções destinadas a estudo e pesquisa, da biblioteca” (WYER, 1930 apud MARTINS; RIBEIRO, 1972, p. 12). Teria sido essa definição o começo da lenda urbana de que para trabalhar na referência você precisa ser pura simpatia e extroversão? Acho que jamais saberemos.

Existem várias outras, mas para fechar a lista de definições clássicas de SR trago a que definiu esse serviço como sendo algo que “abrange todo o espectro que inclui desde uma vaga noção de auxílio aos leitores até um serviço de informação muito esotérico, muito abstrato e altamente especializado” (SHERA, 1966 apud FIGUEIREDO, 1974, p. 175).

Entendo que por “esotérico” Jesse Shera está pontuando que a realização de um Serviço de Referência de qualidade exige uma boa dose de capacidade de abstração e imaginação por parte das (os) bibliotecárias(os), afinal precisamos ser capazes de interpretar as mais variadas questões. Porém, meu lado “piadas do pavê” não consegue deixar de pensar em esoterismo e cantarolar “minha pedra é ametista, minha cor o amarelo…” sempre que leio essa definição.

Para finalizar este texto quero falar um pouco sobre a Margaret Hutchins. Ela é um das pioneiras da pesquisa e publicação sobre SR. Quando publicou seu livro Introduction to reference work, em 1944, ela possuía 35 anos de experiência no trabalho e pesquisa sobre Serviço de Referência.

Essa obra foi uma das primeiras a reunir e discutir a experiência de uma profissional que atuava no SR de modo a tentar apresentar o que, independente da biblioteca em que ocorresse, seria a essência desse tipo de atividade. O esforço da Hutchins resultou numa obra que foi publicada pela American Library Association e que, mesmo décadas depois, seguia sendo adotada por várias das principais escolas de Biblioteconomia do mundo. No Brasil, esse livro só chegou em 1973, sob o título Introdução ao trabalho de referência em bibliotecas.

Se você se interessa pela temática do Serviço de Referência vale a pena conferir o livro da Margaret Hutchins, pois ele apresenta uma síntese do que se fazia e pensava sobre esse assunto na primeira metade do século XX, além de conter várias propostas de como essa atividade poderia ser melhor desempenhada. Esse tipo de leitura nos ajuda a entender melhor o desenvolvimento da área e, às vezes, também é um importante lembrete de que nós não precisamos inventar a roda. Ela já foi inventada. O que precisamos é colocá-la em uso, aprimorá-la, desenvolver novos jeitos de utilizá-la.

Referências

DOTTA ORTEGA, Cristina. Do princípio monográfico à unidade documentária: exploração dos fundamentos da catalogação. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 11., 2010, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos […] Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, 2010. 14 p. Disponível em: http://repositorios.questoesemrede.uff.br/repositorios/handle/123456789/983. Acesso em: 25 mar. 2021.

FIGUEIREDO, Nice. Evolução e avaliação do serviço de referência. Revista de Biblioteconomia de Brasília, Brasília, v. 2, n. 2, p. 175–198, jul./dez, 1974. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rbbsb/article/view/28642. Acesso em: 25 mar. 2021.

KROEGER, Alice Bertha. Guide to the study and use of reference books. Chicago: American Library Association, 1908. Disponível em: https://archive.org/details/kroegerreference00kroerich/page/n5. Acesso em: 25 mar. 2021.

MARTINS, Myriam Gusmão de; RIBEIRO, Maria de Lourdes Guimarães. Serviço de referência e assistência aos leitores. Porto Alegre: Edições URGS, 1972.

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SANTOS, Izabel Lima dos. Origens conceituais do Serviço de Referência. In: SANTOS, Izabel Lima dos. Estante de Bibliotecária. Fortaleza, 09 abr. 2021. Disponível em: https://estantedebibliotecaria.com/2021/04/09/origens-conceituais-do-servico-de-referencia/. Acesso em: dia mês ano.

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