Exercício de Escrita #1

— Eita! Lá vem o Gabriel. Deve estar vindo reclamar das faltas que professor de geografia não quis abonar.

— Boa tarde, fessora! Posso entrar?

— Pode, Gabriel. Mas aviso que se for pra pedir pra abonar faltas da disciplina de geografia eu não vou intervir não. O que seu professor decidiu, está decidido. E também não vou passar atividade pra compensar. Fizemos isso semestre passado com as suas faltas e olha no que deu!? Tá faltando muito de novo.

— Mas fessora, tenho um bom motivo. Teve uma morte…

— Ah, não me vem com esse papinho não. Vai matar que parente agora? Sua avó? Vai ser a mesma avó que tinha morrido ano passado e que depois veio negociar o abono de faltas pra você ou vai ser outra? Só pra eu saber.

— Que é isso, fessora!?! Pra quê esse ressentimento?! Tem que tirar do seu coração esse mau sentimento, essa desconfiança. Eu errei inventando a história da morte de vozinha. Errei e errei rude… Pedi perdão a ela de joelhos… Deuzulivre vozinha morrer. Sério mesmo!

— Huumm, vai matar outro parente, então?

— Que é isso, mah?! Mulher tá trabalhada na desconfiança mesmo… Quer saber, vou embora. Vou tentar explicar nada não porque eu sei que ninguém vai acreditar em mim mesmo. Vão dizer que tô inventando. Sujeito se arrepende, mas fica a desconfiança. Ninguém nunca mais vai nem querer me escutar, é isso?

Diretora suspira.

— Está bem, Gabriel. Você já veio até aqui, então me diz porque você faltou aula semana passada.

— Ah, fessora é que meu cachorro morreu. Atropelado.

— Seu cachorro morreu?

— Eu sei que parece bobeira e tal. Na real, eu só vim falar isso aqui porque a senhora tem essa coisa de gostar de bicho e a senhora ia me entender. Outras pessoas iam rir… Galera não entende o apego que a gente pega por essas criaturinhas

— Hum.. então, seu cachorro morreu mesmo?

— Atropelado. Foi punk, fessora. Ele era meu cachorro faz anos já. E sabe como é animal, eles gostam da gente pelo que a gente é e tal. Não tem essa cobrança. Se a gente vai bem ou mal na escola não importa. Eles só querem carinho atrás da orelha e brincar. É pureza de sentimento. Se liga?

— Me ligo… Digo, entendo.

— Pois é, fessora. Ele morreu assim do nada e eu fiquei malzão… Por isso que não vim. Galera aqui acha que sou forte e bonzão e tal… Como ia ficar minha imagem pra galera? Ia perder a moral… Mas foi isso, fessora. Foi por isso que faltei. Meu cachorro morreu atropelado…

*******************

Escrevi esse texto numa das aulas do curso de escrita criativa promovido pela Vanessa Passos, através do Pintura das Palavras, em 2019. Estou recuperando alguns dos rascunhos que escrevi ao longo desse curso e também em outros momentos e, de vez quando, vou compartilhar alguns por aqui. Curtiram? Me contem o que acharam nos comentários. 😊

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